'Batuqueiro' e 'Raça negra' são as novidades do repertório de regravações do disco 'Pra gente sambar'.



Resenha de álbum

Título: Pra gente sambar

Artista: Fundo de Quintal

Edição: X Entretenimento

Cotação: ★ ★ ★



Referência do samba carioca, o grupo Fundo de Quintal equilibra cadências e músicas antigas com duas composições inéditas no álbum Pra gente sambar. Na foto da capa do disco, em rotação desde 20 de outubro, aparecem somente Bira Presidente, Sereno, Ademir Batera, Júnior Itaguay e Márcio Alexandre.


Mas, desde agosto, o Fundo de Quintal conta com o toque do percussionista Tiago Testa, admitido no grupo para tocar repique de mão, instrumento criado por Ubirany Félix do Nascimento (16 de maio de 1940 – 11 de dezembro de 2020), ritmista, cantor e compositor carioca que criou o Fundo de Quintal ao lado de Bira Presidente e Sereno.


Celebrando 45 anos de carreira, contabilizados a partir de 1978, ano em que Beth Carvalho (1946 – 2019) apresentou ao Brasil no álbum De pé no chão a forma inovadora como o grupo tocava samba na quadra do bloco Cacique de Ramos, o Fundo de Quintal sobrevive da aura criada em torno desses batuqueiros, donos de cozinha luxuosa na casa do samba.


Sem resistir às comparações com títulos emblemáticos da discografia do grupo, como Divina luz (1985) e O mapa da mina (1986), o álbum Pra gente sambar soa meramente regular ao rebobinar românticos sambas menos conhecidos do repertório pregresso do grupo – casos do dolente Amor maior (Arlindo Cruz, Ubirany e Franco, 1987), do filosófico Frasco pequeno (Arlindo Cruz, Mário Sérgio e Franco, 1994), do apaixonado Amor dos deuses (Mário Sérgio e Ronaldinho, 1995), do suplicante Felicidade pede bis (Arlindo Cruz, Marquinhos PQD e Sombrinha, 1996), do lírico Pintando o amor (André Renato, Mário Sérgio e Sereno, 2001) e de Encontro marcado (André Renato e Sereno, 2014) – entre eventuais composições inéditas.


Da magra safra de novidades, o samba Batuqueiro (André Renato e Gilson Bernini) sobressai pelo tempero sempre saboroso da cozinha do grupo e pela letra autorreferente em que o Fundo de Quintal exalta o samba e os próprios integrantes.


A outra música inédita do disco, Raça negra (André Renato e Sereno), louva o orgulho do povo preto com a batucada dos tantãs do Fundo de Quintal em outro destaque de álbum que cresce quando finca as raízes do grupo no tempo presente.


Contudo, o passado domina o repertório do disco Pra gente sambar. Composição que deu título ao álbum lançado pelo Fundo de Quintal em 2001, Papo de samba (Carlos Caetano, Flavinho Silva e Moisés Santiago) exemplifica tipo de samba-crônica que se tornou marca registrada da geração de bambas projetados ao longo dos anos 1980.


Dentro do repertório reavivado no disco, o ágil samba Segura peão (Luizinho SP, 2002) se diferencia por versar sobre rodeio, assunto do universo sertanejo. Por isso mesmo, soa atípico em álbum em que o Fundo de Quintal rebobina cadências, lirismos e sambas do passado de glória.



Fonte: G1